# Analgésicos de uso prolongado: riscos que vale conhecer na dor crônica URL: https://sanareclinic.com.br/programa-movimento-dor-cronica/analgesicos-uso-prolongado/ Analgésicos ajudam em muitos momentos, mas o uso diário por meses traz riscos que nem sempre são conhecidos. Revisar a receita com a médica, sem suspender nada por conta própria, é parte do tratamento da dor crônica. ## Quando o remédio vira rotina Na dor crônica, é comum que os analgésicos passem de recurso ocasional a hábito diário. Um remédio para a dor nas costas, outro para a cabeça, um anti-inflamatório nos dias piores, algo para dormir, algo para proteger o estômago. Com o tempo, a receita cresce, muitas vezes prescrita por profissionais diferentes, e parte dos medicamentos é usada por conta própria. No Brasil, a Pesquisa Nacional sobre Acesso, Utilização e Promoção do Uso Racional de Medicamentos (PNAUM) encontrou prevalência de automedicação de 16,1% na população, mais frequente em mulheres e em pessoas com doenças crônicas. Analgésicos e relaxantes musculares foram os grupos mais usados sem prescrição. Em um inquérito nacional sobre dor crônica, cerca de três em cada quatro pessoas com dor usavam medicamentos, e 19,1% se automedicavam. Este texto é informativo. Ele não substitui a orientação de quem prescreveu seus medicamentos, e nenhum remédio de uso contínuo deve ser suspenso sem conversa com a médica. ## Analgésicos simples: eficácia menor do que se imagina O paracetamol é um dos analgésicos mais usados no mundo e costuma ser visto como totalmente inofensivo. Uma revisão sistemática publicada no BMJ em 2015 reuniu ensaios controlados com placebo e encontrou evidência de alta qualidade de que o paracetamol não reduz a dor nem a incapacidade na dor lombar no curto prazo. Na artrose de quadril e joelho, o efeito foi estatisticamente significativo, mas pequeno demais para ser considerado clinicamente importante. A mesma revisão mostrou que pessoas em uso de paracetamol tiveram quase quatro vezes mais chance de alterações nos exames de função do fígado, embora a importância clínica desse achado ainda não esteja clara. O risco aumenta com doses acima do recomendado, consumo de álcool e uso simultâneo de vários produtos que contêm a mesma substância, como antigripais. ## Anti-inflamatórios: estômago, rins, pressão e coração Os anti-inflamatórios não esteroides são eficazes em situações de inflamação ativa, mas o uso prolongado por via oral traz riscos conhecidos. Os mais frequentes envolvem o estômago e o intestino, com gastrite, úlceras e sangramentos, especialmente em pessoas acima de 60 anos, com histórico de úlcera ou em uso de anticoagulantes ou corticoides. Também podem piorar a função dos rins, elevar a pressão arterial e causar retenção de líquidos. Um grande estudo publicado no BMJ em 2017, com dados de mais de 400 mil pessoas, mostrou que todos os anti-inflamatórios avaliados se associaram a aumento do risco de infarto, com probabilidade de 92% a 99% de risco aumentado conforme o medicamento. O risco foi maior nas doses mais altas e já apareceu no primeiro mês de uso. Por isso, as diretrizes de artrose preferem os anti-inflamatórios de uso tópico, aplicados na pele, sempre que possível. ## Opioides: indicação restrita e acompanhamento próximo Os opioides são analgésicos potentes, importantes em dores agudas intensas, no pós-operatório e em dores ligadas ao câncer. Na dor crônica não oncológica, seu papel é muito mais restrito. A diretriz de 2022 do Centro de Controle e Prevenção de Doenças dos Estados Unidos (CDC) recomenda considerar cuidadosamente benefícios e riscos de todas as opções e priorizar tratamentos não medicamentosos e não opioides, com o objetivo de melhorar a função e reduzir riscos como dependência, overdose e morte. Há também efeitos menos conhecidos. Constipação, sonolência, quedas em pessoas mais velhas e alterações hormonais estão entre eles. Em homens em uso diário de opioides, um estudo encontrou testosterona baixa em 53%, chegando a 74% entre os que usavam opioides de ação prolongada. ## Quando o remédio para dor causa mais dor Um efeito paradoxal merece atenção especial: o uso frequente de medicamentos para crises de dor de cabeça pode transformar uma cefaleia ocasional em dor quase diária. A chamada cefaleia por uso excessivo de medicamentos é comum entre pessoas com 15 ou mais dias de dor de cabeça por mês e costuma ser pouco reconhecida. O tema é aprofundado na página sobre dor de cabeça todo dia deste guia. ## Revisar a receita com segurança Revisar não significa cortar tudo. Alguns medicamentos têm papel importante e devem continuar; outros podem ter dose ajustada; outros deixaram de fazer sentido. A retirada de alguns, como os opioides, precisa ser gradual e acompanhada, porque a suspensão abrupta pode causar sintomas de abstinência e piora da dor. No Programa Movimento da Sanare, a revisão da receita é uma das primeiras tarefas da consulta inicial de cerca de duas horas. A Dra. Vânia verifica doses, interações, duplicidades e efeitos colaterais, conversa com quem prescreveu quando necessário e propõe ajustes com objetivo e prazo definidos. Ao mesmo tempo, as estratégias não medicamentosas, como exercício progressivo, sono, calor local e TENS, ganham espaço. Se você deseja reduzir o número de medicamentos, essa pode ser uma das metas do programa. ## Perguntas frequentes - Tomar analgésico todo dia faz mal? Pode fazer, dependendo do medicamento, da dose e da saúde de cada pessoa. O uso diário prolongado pede avaliação médica para checar benefício real, riscos e alternativas. (https://sanareclinic.com.br/perguntas/dor-analgesico-todo-dia-faz-mal/) - Anti-inflamatório faz mal para os rins e o coração? Pode fazer, principalmente em uso prolongado, doses altas, idade avançada e em quem já tem doença renal, pressão alta ou doença cardíaca. Os de uso tópico têm menos efeitos no corpo. (https://sanareclinic.com.br/perguntas/dor-anti-inflamatorio-rins-coracao/) - Como reduzir o uso de remédios para dor com segurança? Com acompanhamento médico: revisar a receita, ajustar doses aos poucos quando necessário e fortalecer as estratégias não medicamentosas ao mesmo tempo. Nunca suspenda por conta própria. (https://sanareclinic.com.br/perguntas/dor-reduzir-remedios-com-seguranca/) - Relaxante muscular pode ser tomado por muito tempo? Em geral, relaxantes musculares são indicados por períodos curtos. O uso prolongado tem benefício pouco estabelecido na dor crônica e pode causar sonolência, tontura e quedas. (https://sanareclinic.com.br/perguntas/dor-relaxante-muscular-uso-prolongado/) ## Dados e evidências - A automedicação atingiu 16,1% dos brasileiros, e analgésicos e relaxantes musculares foram os grupos mais usados sem prescrição. Fonte: Rev Saúde Pública 2016 (PNAUM) (https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/27982373/) - Evidência de alta qualidade mostrou que o paracetamol é ineficaz para dor lombar e tem efeito pequeno, não clinicamente importante, na artrose; usuários tiveram quase 4 vezes mais alterações em exames do fígado. Fonte: BMJ 2015 (https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/25828856/) - Todos os anti-inflamatórios avaliados se associaram a maior risco de infarto, maior nas doses altas e já no primeiro mês de uso. Fonte: BMJ 2017 (https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/28487435/) - Entre homens em uso diário de opioides, 53% tinham testosterona baixa, chegando a 74% com opioides de ação prolongada. Fonte: Clin J Pain 2013 (https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/24384986/) ## Fontes - Prevalence of self-medication in Brazil and associated factors (Rev Saúde Pública, 2016): https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/27982373/ - Efficacy and safety of paracetamol for spinal pain and osteoarthritis (BMJ, 2015): https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/25828856/ - Risk of acute myocardial infarction with NSAIDs in real world use (BMJ, 2017): https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/28487435/ - CDC Clinical Practice Guideline for Prescribing Opioids for Pain — United States, 2022 (MMWR): https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/36327391/ - Hypogonadism in men with chronic pain linked to long-acting opioids (Clin J Pain, 2013): https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/24384986/ - Prevalence of Chronic Pain, Treatments, Perception, and Interference on Life Activities: Brazilian Population-Based Survey (2017): https://pmc.ncbi.nlm.nih.gov/articles/PMC5634600/ --- Sanare Clinic — medicina de longevidade, integrativa, regenerativa e nutrologia em São Paulo. Endereço: Rua João Cachoeira, 1397, Itaim Bibi, São Paulo — SP, 04535-015. WhatsApp oficial: +55 11 96964-1144 (https://wa.me/5511969641144). Médica responsável: Dra. Vania Declair Cohen (CRM/SP 260848), mais de 8 mil pacientes atendidos; pesquisa publicada desde 1994 (Rev Bras Enferm 1994, doi:10.1590/S0034-71671994000100005; Ostomy Wound Manage 1997, PMID 9233238; 1999, PMID 10347511); criadora da fórmula do Dersani, à base de ácidos graxos essenciais; pós-graduação no Hadassah Medical Center (Jerusalém); palestrante na FUE Europe 2024. Método: Programas Sanare de 12 semanas — consulta inicial de cerca de 2 horas, visita semanal, bioimpedância mensal e relatório de evolução. O conteúdo é educativo e não substitui consulta médica.